Levanto essa questão, a partir das pichações feitas na Bienal de Arte deste ano, no Ibirapuera, para que possamos discutir o mérito de uma intervenção poética em geral.
Algumas imagens noticiosas, para prosseguirmos a discussão:
http://br.youtube.com/watch?v=4jzLf38PsBA (Sugiro assistir sem volume)
http://br.truveo.com/Metr%C3%B3polis-Picha%C3%A7%C3%A3o-na-Bienal-d...
Questões a serem consideradas:
1 - mensagem explícita. Obviamente no caso em questão a mensagem explícita não deve ser levada em conta, porque todo tipo de coisa foi pichada, sem critério e sem plano. Mas não é sempre assim. Vd. "Odeie o seu ódio".
2 - mensagem implícita. Aqui se trata daquilo que podemos inferir a partir do contexto da pichação. Neste caso, pichar o andar vazio da Bienal pode significar várias coisas, entre elas: um protesto contra a qualidade da Bienal; contra a curadoria; contra a seleção de obras, levando em conta que o espaço vazio pode ser representativo da arte que ficou de fora.
3 - autoria. Em seguida, é preciso levar em conta quem fez o ato, o que é um ponto bastante relevante do contexto. Por exemplo, no caso presente, os autores não eram artistas plásticos, e portanto não podiam estar protestando contra a má escolha das obras, a qualidade da Bienal, ou mesmo contra a curadoria. Seu escopo portanto é mais amplo, devem estar levando em conta o estado atual da arte em geral, a pertinência da arte nos museus, talvez a pertinência da própria arte plástica.
4 - destino. Finalmente, temos que levar em conta o destino da ação, para quem se dirigia, se atingiu seu público, se transmitiu sua mensagem, se obteve o efeito que esperava. Aqui, a questão é de certa forma política: não se trata unicamente da qualidade do ato, mas também de seu sucesso e fracasso, que às vezes obedecem a fatores mais imprevisíveis ou incontroláveis. Só podemos tratar o destino da obra como critério para sua qualidade se esse destino era previsível, no contexto em que foi feita.
No caso da pichação, não tenho dúvida de que tenha sido um desastre completo. O meio escolhido envolvia violência gratuita, e isso não diz muito para a nossa sociedade. Não é nada que surpreenda ninguém, é diferente do Jodorowski atravessando em linha reta a cidade, subindo em carros, em árvores, entrando em casas para sair pela porta dos fundos ou por uma janela. A sociedade produz a violência, e tem mecanismos bastante prontos pra lidar com ela, seja a polícia, seja o aparato opinativo do jornalismo.
De qualquer modo, não é com outra reação que os pichadores esperavam lidar, vd. as bravatas quanto ao policiamento na Bienal.
O resultado que obtiveram, além da prisão da menina, foi que a tal segurança falha fosse reforçada, incluindo revistas nos visitantes e detecção de metais na entrada. Nada relacionado à arte, ou às mensagens pichadas.
Mesmo assim acho que temos material pra discussão, digam o que acham.
(Me desculpem por estar escrevendo mal, é sexta-feira ou algo assim)